janeiro 27, 2004

Smile 63

“Lembra-te de santificar o dia de sábado.”.
Bom, até que enfim. Um mandamento com sentido e que é provavelmente o mais praticado de todos. Aleluia!
Para mim, a rave em que tudo isto aconteceu foi numa terça-feira. Vai daí, Deus passou-se. É que eu imagino um gajo a ter que se levantar cedo no dia a seguir, para ir para a carpintaria bulir (acho que tinha uma remessa de móveis para entregar na sexta, e aquilo andava atrasado) e ser obrigado a estar até às tantas da manhã a dar mandamentos ao pessoal. Tudo a curtir, a beber, com grandes mocas, e Ele ali, todo lixado, cheio de sono, à espera que Lhe dessem atenção. “Ai ele é isso? Então esperem aí que acaba-se já esta merda. A partir de agora começam a curtir ao sábado, que a mim já não me fodem!”. E tunga, prega-lhes com esta do sábado. O pessoal, tudo bem. E desde então é só curtir. Agora, na minha opinião, a coisa ficou curta. Porque é que ele não se lembrou de dizer: “Lembra-te de santificar o dia de sábado, com folga antes e descanso no dia a seguir, e dia livre para preparação antes e depois de cada folga.”. Tinha sido muito melhor. Mas tudo bem, até lhe dou razão. É que os ajudantes da carpintaria começaram a aparecer de manhã com grandes ressacas nos cornos e a partir de certa altura nunca chegavam a horas. Não é fácil ser patrão.
Realmente esta coisa da carpintaria devia ser complicada de gerir. Um gajo tem que fazer as entregas, ainda por cima de carroça, fazer os móveis e ainda andar preocupado em ser Deus. Onde é que estavam os sindicatos? Como é que um gajo é patrão e Deus ao mesmo tempo? Quer dizer, Ele podia ter feito os mandamentos em seu próprio benefício.
Não está provado, mas diz-se que já na altura, quando ele falou neste mandamento do sábado, se levantou imediatamente um gajo no meio da molhada, de blazer de fazenda aos quadrados e com uma camisa sem gravata, de punho no ar a dizer que tudo aquilo não passava de uma manobra do patronato para enganar a classe operária, que a luta ia continuar e que se não se acabasse com aquela exploração da mão-de-obra, na semana seguinte se faria uma greve com manifestação em frente à porta do palácio do imperador. Não se soube mais dessa criatura desde então. Hoje ainda subsistem alguns seguidores desse homem, desconhecido, mas em número muito pequeno e com tendência a desaparecer. Fazem parte de uma raça em extinção, tal como aqueles que sabem o nome de todos os rios e caminhos de ferro de Angola.
Mas passando ao que importa, a ideia de santificar o dia de sábado acabou por ficar marcada na história com uma tela que retrata exactamente o que Deus queria dizer.
Na primeira oportunidade, o filho d’Ele juntou uns amigos e fez um festão num restaurante lá da terra. Estava tudo na rambóia e na galhofeira quando um pintor que ia por ali a passar se lembrou de fazer um quadro daquilo. Consta que era um contratado da oposição incumbido de arranjar provas sobre para onde ia o dinheiro que o povo pagava de impostos. Ao que parece, o filho do tal Deus era um grande maluco e estoirava a guita toda em festas e com gajas. Ainda hoje, em homenagem a esse tempo, os padres bebem um copo nas missas. Esse pintor acabou por entregar o quadro aos elementos da oposição, que com essa prova na mão resolveram prender o filho do Deus. Os amigos que estavam na festa debandaram e nunca mais se soube deles. Um, soube-se depois, acabou por se matar, enquanto curtia uma tripe. Outro tentou fugir com uma tipa que o filho do Deus andava a papar, de nome Madalena.
À conta deste episódio, a carpintaria fechou, os empregados ficaram sem emprego e um empresário que andava atrás do filho do Deus, para promover espectáculos de habilidades com pães, desistiu do negócio. Até hoje, ficou um ritual que o tal filho costumava fazer durante as festas de arromba, que consistia em despejar champanhe pela cabeça abaixo do pessoal. Hoje é com água, pois o preço do champanhe subiu desmesuradamente desde então.
Enfim, há quem conte a história de outra maneira, mas esta é provavelmente a mais credível. Quanto ao sábado, aleluia ao Senhor. Ao menos lembrou-se de uma cena de jeito.

Publicado por Pikes em janeiro 27, 2004 04:44 PM
Comentários

Pikes, não deixes de escrever... PLEASE?!?!?!?!

Afixado por: Eu em fevereiro 19, 2004 05:57 PM

Tendo-se Mr. Pikes cansado de escrever, será que continua a fazer sentido a minha existência?

Afixado por: Senhor Doutor em fevereiro 13, 2004 09:41 PM

8,5 [de 1 a 10]

Melhor momento:

«... fazer os móveis e ainda andar preocupado em ser Deus.»

Afixado por: Senhor Doutor em janeiro 28, 2004 07:37 PM